O âmago da compreensão
pós-milenista sobre o fim dos tempos está numa interpretação exegética menos
mitológica de Apocalipse 20. Muitos cristãos de teologia conservadora não
conseguem compreender como alguém que defende a depravação total do ser humano,
no mal desenfreado do mundo atual, na atuação presente de Satanás e na forma
como o século XX testemunhou uma grande guerra após outra, poderia crer em
algum reino milenar à surgir durante a presente era. Parte do problema aqui é
que poucas pessoas se importaram em compreender a forma em que os intérpretes
pós-milenistas realmente lêem o texto da Bíblia. As pressuposições acerca do
pós-milenismo existem em abundância, e raramente os críticos dessa perspectiva
tomam tempo para estudar e compreendê-la corretamente.
O que é realmente
surpreendente a respeito dessa oposição ao pós-milenismo é que há um certo
tempo teria ocorrico extamente o contrário entre cristãos dos EUA fundamentados
e centrados na Bíblia. Muitos dos maiores professores e estudiosos da Bíblia no
passado defendiam essa posição. Deveríamos simplesmente pressupor que os
principais teólogos evangélicos do século XIX não tinham base bíblica para
defender as suas posições?
O pós-milenismo
bíblico não deve ser confundido com as idéias liberais de progresso social do
século XIX. O pós-milenismo evangélico certamente não era um “otimismo
evolucionário”. Além disso, não era teologia liberal. O professor John
Jefferson Davis, do Seminário Teológico Gordon-Conwell, pós-milenista, escreve
algo muito útil para essa reflexão:
A visão pós-milenista da
difusão e expansão do Reino de Cristo não somente energizou os enormes esforços
para missões domésticas e internacionais no século XIX, mas a partir de 1815
também estimulou reformas sociais nas áreas de pacificação, abstinência de
bebida, ensino público, abolição da escravatura e preocupação pelos pobres.
Naquele período reinava a convicção de que o progresso do Reino de Cristo
exigia não somente a regeneração pessoal, mas também esforços para redimir e
transformar estruturas sociais injustas.
É importante observar
que nenhum pós-milenista sério acredita que Cristo vai reinar fisicamente sobre
a terra durante a época associada à sua interpretação de Apocalipse 20. Aliás,
em geral concordam que os mil anos citados devem ser interpretados como representativos
de um período longo.
Mas qual é exatamente
a visão pós-milenista das coisas, e porque isso importa para a nossa reflexão
sobre avivamento? John J. Davis escreve que as doutrinas principais do
pós-milenismo são:
1. Por meio da pregação do Evangelho e
do derramamento espetacular do Espírito Santo missões cristãs e o evangelismo
terão um sucesso extraordinário, e a Igreja passará por um período de expansão
numérica e vitalidade espiritual sem precedentes.
2. Esse período de prosperidade espiritual,
o milênio, entendido como um período longo, será caracterizado por evidências
de paz e bem estar econômico crescentes no mundo como resultado da influência
sempre maior da verdade cristã.
3. O milênio será caracterizado também
pela conversão à fé cristã de um grande número de judeus étnicos (Romanos
11:25-26).
4. Ao final do período do milênio haverá
um breve período de apostasia e conflito severo entre as forças do cristianismo
e as forças do mal.
5. Por fim, e simultaneamente, ocorrerá
a volta visível de Cristo, a ressurreição dos justos e ímpios, o juízo final e
a revelação dos novos céus e nova terra.
Essa perspectiva é
chamada pós-milenismo simplesmente porque crê, em contraste com outras linhas
da profecia, que a volta de Cristo seguirá este período de benção do milênio.
Porque essa posição é
então associada muitas vezes a esperança pelo avivamento e uma teologia bem
definida de avivamento? O pós-milenista bíblico conservador não crê que as
condições do mundo em si não têm um papel significativo naquilo que o Deus
soberano pode escolher fazer em relação ao avivamento em qualquer momento da
história. Quanto mais tenebroso o momento na história, tanto maior pode ser a
luz da reforma e do avivamento. A esperança não é depositada na melhoria das
condições sociais, mas no Deus soberano que intervém na história de acordo com
a sua vontade e quando Ele quer.
A questão principal
para a maioria dos pós-milenistas sérios que seguem a Bíblia é esta: “O
evangelho ainda vai se tornar um poder de transformação mundial para todas as
nações?”. A resposta que eles dão é um retumbante sim.
Jonathan Edwards, o
maior teólogo do avivamento que já abençoou a Igreja, defendia essas mesmas
idéias milenaristas. Isso pode ser observado em todos os seus escritos e
orações em que pede que as misericórdias futuras de Deus desçam no verdadeiro
avivamento.
O que devemos concluir
de tudo isso? Devemos aderir ao pós-milenismo se cremos no avivamento e
queremos promovê-lo? O pós-milenismo pode até reacender o o interesse pelo avivamento,
mas não creio que faça isso por si mesmo. Se você está inclinado a acreditar
nessa perspectiva da profecia ou não, precisa ao menos reconhecer que há uma
série de textos nas Escrituras que podem ser interpretados de forma mais
otimista em relação às perspectivas futuras da Igreja nesta era. Esse elemento
de esperança talvez seja a maior contribuição que o pós-milenismo pode trazer
àquelas pessoas que estão abertas a repensar as coisas que tomavam como certas.
Os puritanos colocam
uma grande quantidade de textos numa categoria denominada “para a glória dos últimos dias”. Construíram os seus argumentos
principalmente em torno do texto neotestamentário de Romanos 11. Será que esse
capítulo está se referindo a uma terceira época ao final desta era, um período
em que judeus e gentios chegarão a uma unidade por meio das misericórdias do
avivamento de Deus? Todas as três escolas de interpretação profética
(amilenistas, pré-milenistas e pós-milenistas) incluem aqueles que argumentam
que a resposta precisa ser sim. Aliás, essa parece a perspectiva conservadora
mais comum de Romanos 11 que resulta de consulta aos comentários. Se essa
perspectiva está correta, então a expressão “quanto mais significará a sua plenitude!” (Romanos 11:12) pode
estar se referindo a uma época maravilhosa de avivamento ainda por vir.
A pessoa não precisa
adotar nenhuma dessas três perspectivas para acreditar que essa esperança por
um grande avivamento pode muito bem estar fundamentado nas Escrituras.
Tudo isso foi dito para encorajar o leitor a
pensar de forma mais profunda acerca do assunto do avivamento, especialmente em
relação ao tipo de questões que homens tementes a Deus de gerações passadas
levam em alta consideração.
